quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

#31 A Morte de Ivan Ilitch, Liev Tolstói

Depois de ter me dedicado a Anna Kariênina e amado tanto, me interessei mais por Tolstói. Ao contrário daquele, A Morte de Ivan Ilitch pode ser lido numa tacada só até, pois não passam de 80 páginas.

O personagem do título faz uma reflexão sobre sua vida, à beira da morte, que pode muito bem ser uma reflexão sobre A vida – a sua, a minha, enfim, a existência. Nesse curto, mas não menos denso, romance, está presente uma teia de como são construídas certas relações humanas, baseadas no interesse, na conveniência, na mentira, na falsidade e na futilidade, tanto na família quanto no trabalho.  Como diz o escritor brasileiro Milton Hatoum no texto da orelha, “(...) Ivan Ilitch empreende uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa quanto a dor moral. Ambas se completam num sentimento de horror, que se revela através da consciência da morte”. Daí ele busca algum sentido para sua vida. Os russos e o século XIX – um encontro que, pelo menos na literatura, deu muito certo. Como entendem a alma humana!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

#30 A Filha Perdida, Elena Ferrante

Li A Filha Perdida na sequência de Dias de Abandono.  Por ser tão forte aquele, esse me pareceu que demorou a engrenar, mas no final se configurou como mais um excelente retrato da mulher, da mãe, que Elena Ferrante faz como poucas ou talvez nenhuma outra autora.

A (anti-)heroína de Ferrante aqui é Leda, uma mulher que tira férias no litoral sul da Itália após as filhas, já adultas, irem morar no Canadá com o pai. Logo no primeiro dia, ela percebe uma família napolitana que chama muita sua atenção. Leda passa a especular mentalmente o parentesco entre as pessoas e nota alguns detalhes sobre a relação deles. Ela acaba se aproximando da família, principalmente da jovem Nina e sua filha Elena. A partir da relação com elas, Leda revela segredos de seu passado, de sua relação com as filhas, muito que explica a distância (não apenas física) entre elas hoje.  O que representa ser mãe é um tema muito central nesse livro, que o explora por meio de diversas personagens, não apenas de Leda e Nina. Apesar de ser uma mulher madura bem resolvida, mostra-se vulnerável, frágil e até falível. Mais uma personagem verossímil para a galeria de Ferrante.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

#29 Dias de Abandono, Elena Ferrante

A febre Elena Ferrante me pegou tão de jeito que depois de ter devorado a tetralogia A Amiga Genial eu já engatei os outros romances da autora. E esse Dias de Abandono é tão pungente, tão visceral que chega a ser um soco no estômago.  Não que a tetralogia fosse cheia de meiguices, não. A vida era dura lá também, até mais dura que aqui. Mas a forma de narrar, o que se diz e como se diz torna esse romance muito mais cru.
Olga, a narradora, conta logo de cara a origem de tudo pelo que passa nessa história: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar”. O que vem daí é um dos relatos mais nus e crus das agruras por que passa uma mulher abandonada pelo marido que perde o controle de si. Mas o abandono do título não vem só do fato de Olga ter sido deixada por Mario. É o abandono de Olga por ela mesma, que deixa de querer viver em alguns momentos; é o abandono dos filhos por Olga, que os relega a segundo plano; é o abandono dos filhos por Mario também, porque ele passa a ficar muito pouco presente.

Quantas mulheres não são deixadas por seus maridos? Muitas. Até aí nada de novidade. Mas a forma como Olga nos conduz por seu abandono traz à tona tudo aquilo que muitas de nós sentimos, queremos dizer, queremos fazer, mas não nos damos ao trabalho ou nossa índole não permite ou o relacionamento já não vale o desgaste de tudo isso. Ferrante nos brinda com uma personagem real, verossímil e que nos representa muito bem. Por que tem horas que o melhor a fazer é colocar todos os demônios para fora e gritar e xingar.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

#28 As Alegrias da Maternidade, Buchi Emecheta.

Uma garota nascida na Nigéria dos anos 20, cresce na cidadezinha de Ibuza, em meio às tradições do povo igbo, ao qual pertence. Ali, os homens podem ter quantas esposas quiserem e elas tem a obrigação de lhes dar filhos – homens, de preferência. Uma mulher só era considerada completa naquela época e naquela cultura se fosse mãe. Esse era seu papel. Nnu Ego não questiona. É isso que ela mais deseja para sua vida.  No entanto, enfrenta dificuldades. Primeiro, para engravidar (e a ‘culpa’ recai totalmente sobre ela). Depois, para cuidar dos filhos sob as mais adversas condições na capital Lagos, onde os costumes de seu povo já não são o lugar comum e ela se vê adotando por conveniência uma nova religião e enfrentando problemas que vão gerando, por meio de Nnu Ego ou de outros personagens, questionamentos: sobre a condição da mulher, sobre a cultura da qual vinha, o papel da família (dela como filha e de seus filhos), e vai, assim, nos conduzindo a acompanhar sua jornada pela sobrevivência.
Eu nunca tinha ouvido falar da escritora nigeriana Buchi Emecheta até receber meu kit de outubro da TAG Experiências Literárias (www.taglivros.com.br), sugerido pela curadoria de ninguém mais ninguém menos que Chimamanda Ngozi Adichie, o que me despertou a curiosidade e enquanto publico essa resenha leio já o terceiro livro de Chimamanda. Aguardem).
A narrativa de As Alegrias da Maternidade é muito linear e a história é contada praticamente de forma cronológica. Mas o que surpreende e cativa é como Buchi nos leva para dentro da cultura igbo, às vezes em conflito com outro povo também nigeriano, os iorubás, e uma vida completamente diferente da que conhecemos no dito Ocidente se descortina. Não gosto de generalizações, mas mesmo levando em conta que o que nos mostra é apenas um recorte da cultura de seu país, é um excelente painel de uma vida que pode, sim, representar muitas.

Com um título claramente irônico, a obra traz à tona a questão da violência doméstica, da perpetuação de papeis sociais, da colonização (no caso) britânica na África e até da 2ª Guerra Mundial, que foi responsável por muitos africanos serem tirados de suas famílias e trabalhos no seu país e levados a lutar por algo que sequer sabiam o que era ou representava, deixando, dessa forma, suas esposas e (muitos) filhos com mais dificuldades financeiras ainda do que já tinham com os homens trabalhando. Um retrato belo e triste que vale cada letrinha impressa. Devorei em 3 dias. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

#27 Um Amor Incômodo, Elena Ferrante

Depois de me apaixonar pela série napolitana de Elena Ferrante, me apeteceu conhecer suas outras obras, anteriores e posteriores a A Amiga Genial e cia. Então, além deste que comento aqui, tem outras resenhas de Elena Ferrante a caminho.
Um Amor Incômodo é narrado por Delia, que após saber da morte de sua mãe, Amalia, afogada em uma praia, passa a investigar o que pode ter acontecido com ela através da relação que ela tinha com um suposto amante. A partir daí, Delia retoma contato com pessoas e lembranças de seu próprio passado e passa a reconstruir a história por meio de fragmentos de memória e de fantasias também. O que de fato aconteceu e o que pode ter sido imaginação de uma garotinha de 4 anos? O que de fato aconteceu a Amalia e o que aconteceu a Delia?

O que está presente nesse romance de maneira contundente, assim como na quadrilogia napolitana de Ferrante, é a violência tomada como natural e até esperada, as mulheres tendo suas vidas ditadas pelos homens que as dominam (pai, marido etc.), mas o enredo sendo contado sob o viés feminino e tendo mulheres nos principais papéis, tendo voz, sendo donas da história – vemos tudo pelo olhar e pelas lembranças de Delia, sejam elas toda a verdade ou não. Elena Ferrante hoje é uma das mais importantes autoras da atualidade que escreve sobre mulheres, que dá voz a mulheres, mas que deve ser lida por todos!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

#26 Anna Kariênina, Liev Tolstói

Meu interesse por leituras é bastante vasto – dos autores canonizados a livros de psicologia e até alguns de gestão de pessoas. Portanto, querer ler um clássico não é novidade nenhuma. Eu cursei Letras, então, o acesso a vasta literatura e sua crítica é certo, estimulante e, até certo ponto, frustrante, porque são tantas obras interessantes que nos são apresentadas (e uma leva a outra, que leva a outra ad infinitum) que você tem a certeza de que vai morrer (velhinha) e não vai conseguir ler tudo que tem vontade!
A gente sempre ouve falar de variados clássicos da literatura mundial, mas Anna Kariênina me chamou a atenção principalmente na época em que estava no 1º ano de Letras (2008) e cursava a disciplina Introdução aos Estudos Literários 2 (IEC2) com a professora Betina Bischof (excelente!) – acho que já a mencionei quando falei de Tchekhov... ah, os escritores russos.... Daí que eu comprei aquela edição maravilhosa de capa dura, superbem trabalhada, de uma editora que só faz obras no capricho, paguei um preço camarada, mas o livro tem mais de 800 páginas, não conseguia posicioná-lo sobre o corpo (gosto de ler deitada, a não ser que esteja estudando), empaquei antes de ler um terço da obra, tinha pressa de terminar e ler outras coisas (não estava muito avançada na arte de ler vários ao mesmo tempo ainda). Isso faz uns 4 anos.
Há uns três meses, resolvi que iria retomá-lo e terminá-lo. Hoje sou muito acostumada a ler vários livros concomitantemente, e se começasse a achar algum trecho dele enfadonho, poderia dar um tempo e passar para outro com muita tranquilidade. Houve um facilitador que foi estar em férias na primeira semana da minha empreitada, mas a verdade é que me apaixonei pelo livro, pela escrita de Tolstói, pelo contexto histórico, pelos personagens, pela Rússia, enfim, não conseguia parar. Até comecei e terminei outro livro mais “fácil”, digamos, enquanto lia a obra-prima russa (Quase Memória, minha última resenha publicada, #25), mas sentia falta, saudade dos personagens de Anna Kariênina quando não o lia.
De histórias de adultério, a literatura do século XIX está cheia de bons livros (adoro Madame Bovary e O Primo Basílio), mas o romance de Tolstói me parece mais rico. Está presente todo o contexto histórico da segunda metade do século XIX, com questões como a mecanização da agricultura, a luta de classes, o parasitismo da aristocracia, o questionamento sutil até do papel da mulher na sociedade,  as tradições e costumes da aristocracia russa, a situação dos mujiques, o questionamento sobre a existência de Deus, o papel da religião, enfim, um mosaico que poderia ter dado em uma obra sem foco e abrangente ao extremo de forma a fazer o leitor perder o fio da meada. Mas a narrativa de Tolstói nesse romance é tão bem intrincada que tudo faz sentido. Ele foi capaz de criar um painel com as palavras de tal maneira que o leitor é capaz de visualizar tudo o que está lendo. Sem contar a construção das personagens: tridimensionais, com suas contradições,  ricas em nuances. Destaque para Liévin, desde o começo o meu favorito: questiona, tem dúvida, tem certezas, é incoerente, ama, tem ciúmes, mais verossímil impossível!
Em tempo: confesso que retomei a leitura do calhamaço agora no e-reader, bem mais leve e fácil de apoiar sobre o corpo.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

#25 Quase Memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é uma linda homenagem de Carlos Heitor Cony ao seu pai, Ernesto Cony Filho. No romance, escrito após um hiato de 20 anos do autor sem se dedicar a esse gênero, o narrador retoma a vida de seu pai (e indiretamente a sua própria, de seus familiares, dos amigos dele e do país entre os anos 30 e 80), a partir de um embrulho que recebe por meio de um portador desconhecido, que o faz crer que foi escrito e preparado por seu pai – que, no entanto, morrera havia 10 anos.
A partir daí, o autor relembra passagens hilárias e outras dramáticas da vida deste que, muito provavelmente, foi seu herói, e com isso vai adiando a abertura do tal pacote e nos deixa, leitores, ao mesmo tempo que extasiados com a narrativa, ansiosos pelo esclarecimento do misterioso pacote.

Para mim foi uma grata surpresa, porque confesso nunca ter lido nenhum livro do autor, nem ter tido qualquer interesse até então. A oportunidade surgiu porque Quase Memória foi o livro de setembro da TAG (www.tag.com.br) e lendo o texto do curador da obra, Ruy Castro, me interessei bastante. Devo dizer que o romance até superou minhas expectativas. Li em cerca de 10 dias, intercalando com outras leituras, mas poderia ter terminado em menos tempo até.