terça-feira, 2 de janeiro de 2018

#37 A Praça do Diamante, Mercè Rodoreda

O último livro lido (=terminado) em 2017 foi A Praça do Diamante, da escritora catalã Mercè Rodoreda, enviado pela TAG (www.taglivros.com.br) em dezembro. Eu não conhecia nem a obra, nem a autora.
A narradora é Natàlia, apelidada de Colometa pelo namorado, Quimet. Com sua prosa cheia de discurso indireto, ela nos leva a ver o que acontece à sua volta na Barcelona da década de 30 por meio de sua ingenuidade. Ao longo do romance, Colometa vai se tornando mais madura (casa, tem filhos, a vida é dura com ela) e a gente presencia a transformação pela qual passa também a sociedade, em plena Guerra Civil Espanhola, mesmo que indiretamente. Vale dar atenção também à presença dos pombos, do espelho e da boneca na história. Colometa retorna a eles com frequência. 
Não foi o melhor livro que li em 2017, mas foi, pra mim, muito importante ler uma autora catalã, antes de ser espanhola, uma autora que não conhecia e da qual jamais ouvira falar. Acho que foi importante terminar o ano com Mercè Rodoreda para dar o tom da necessidade de conhecer novas escritas em 2018, ampliar os horizontes, ver sob novas perspectivas. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

#36 Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie

Foram três livros de Chimamanda na sequência! Meio Sol Amarelo é um retrato bem desenhado do que passou parte da população da Nigéria durante a guerra pela independência da província de Biafra, no final dos anos 60 e início dos 70. A história é narrada sob três pontos de vista:
1.       Ugwu, adolescente que trabalha na casa do professor universitário Odenigbo, que na surdina participa da trama da revolução para criar  a República do Biafra;
2.       Olanna, filha de família rica, mas que se recusa a fazer parte do jogo de poder de seu pai e decide ser professora universitária, é mulher de Odenigbo;
3.       Richard, inglês fascinado pela arte de uma tribo nigeriana, vive no país há muitos anos, fala a língua ibgo, é namorado de Kainene (irmã gêmea não-idêntica de Olanna).
Diante dessas três diferentes, mas complementares, perspectivas, é possível ter uma visão mais completa de como o conflito afetou as diferentes camadas que compunham a sociedade biafrense. Acima de ser um relato sobre a guerra civil (que matou além dos soldados e civis que foram bombardeados pelas tropas nigerianas após a declaração de independência do Biafra, também os que morreram de fome, devido ao isolamento que se seguiu, durante os 3 anos de existência do Estado biafrense), esse romance épico tenta mostrar como os indivíduos tentaram continuar com suas vidas ou usaram das relações que possuíam para ajudar seu povo a sobreviver – caso de Odenigbo, que até certo ponto manteve suas aulas na universidade, e de Kainene, que usou de seu bom trânsito no meio militar para abrir caminho e facilitar a entrada de alimentos e a ajuda às pessoas desamparadas pela guerra.

Mais uma vez, acredito que Chimamanda parte do subjetivo para o coletivo, fazendo um recorte que ilustra muito bem o todo. Imperdível!

domingo, 31 de dezembro de 2017

#35 No Seu Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie

Amei tanto Hibisco Roxo que aproveitei uma promoção e já adquiri outros livros da Chimamanda (se preparem pra overdose dela!). No Seu Pescoço é uma coletânea de contos que tratam de temas variados como: imigração (muitas histórias se passam nos EUA), preconceito racial, relações familiares e conflitos religiosos.
Em termos de linguagem, destaque para “Jumping Monkey Hill”, que tem um conto dentro do conto, e para o que dá título ao livro, que utiliza a segunda pessoa ao narrar.

Com relação aos temas, acredito que muito do que está presente nos contos desse livro tem a função de quebrar (ou pelo menos questionar) estereótipos do que é ser africano – não que isso por si só já não seja um, porque existem muitas áfricas dentro do continente africano; ser nigeriano não é o mesmo que ser queniano, sul-africano, congolês, egípcio, somali ou angolano. Obviamente que a visão que fazemos da África (inclusive essa visão de unicidade) é fruto da visão que o ocidente criou e propaga sobre o continente e os países que o compõem. Até o conceito de ocidente é questionável, mas aí a gente deixa pra uma outra hora e evoca o Edward Said pra nos ajudar! Enfim, seus contos tratam muito de identidade, e partem do subjetivo para atingir o universal, ou seja, um recorte pode, sim, significar uma boa amostragem do todo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

#34 Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie

Obviamente todos que se atentam um pouquinho ao mundo literário, ouviram falar da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie este ano, muito devido aos seus livros de cunho abertamente feminista. Ela foi minha terceira paixão literária de 2017, depois de Elena Ferrante e os russos, como havia mencionado no post de ontem. Mas o que me atraiu mais em Chimamandafoi ler suas obras que retratam a vida em seu país de origem. Uma amiga muito querida já tinha me indicado Hibisco Roxo e lá fui eu conhecer Chimamanda.
A história desse romance é narrada pela jovem Kambili. Ela é filha de Eugene, um rico nigeriano, dono de fábricas de bebidas e alimentos. O ambiente familiar é de pura repressão. Eugene é um cristão fervoroso e obriga a família a rezas diárias, idas à missa, uma rotina com todas as atividades cronometradas e planejadas para os dois filhos adolescentes (Kambili e seu irmão Jaja), a quem sobra pouquíssimo ou nenhum tempo para fazer o que desejam.
A situação não poderia ser mais contraditória: Eugene é admirado pela comunidade por suas atividades de caridade, mas em casa espanca a sua submissa esposa e pune os filhos de forma também cruel, exerce violência física e psicológica, renega seu pai, que não abriu mão de sua religião local em nome do cristianismo imposto ou trazido pelo branco colonizador, como Eugene fez. Eugene impede até que os filhos convivam com o avô, a quem chama de pecador e pagão.

Através da convivência e da admiração pela tia Ifeoma, a voz quase inaudível de Kambili aos poucos vai desvelando a história, atribuindo-lhe contornos que revelam um pouco mais da essência da adolescente e do mundo em sua volta. Mesmo com essa voz débil, Chimamanda consegue pintar um quadro bem nítido das condições sob as quais Kambili e seu irmão viviam. E a menina quase muda vai ganhando um pouco mais de voz e um pouco mais de liberdade. Um dos livros mais lindos que já li!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

#33 Limonov, Emmanuel Carrère

Eu tive 3 paixões literárias em 2017: Elena Ferrante, os russos (que foi na verdade um reavivamento de uma chama antiga!) e uma terceira que vocês saberão amanhã. O livro de hoje não é exatamente escrito por um russo (embora o autor tenha descendência eslava por parte de mãe), mas sobre um russo, uma espécie de reportagem biográfica.
Um dos aspectos mais legais de ler é conhecer outros mundos. Eu não conhecia nem o autor do livro (Emmanuel Carrère, que eu soube depois ser muito famoso na França) nem sobre quem ele escrevia (Eduard Limonov, poeta, escritor, ativista, dissidente político russo). Tanto é que quando recebi esse livro no kit de junho da TAG (www.taglivros.com.br) não me interessei muito e só o li em novembro, motivada pelo fascínio que a cultura e a história russa exercem sobre mim e que estava exacerbado depois de Tolstói.
O personagem, digamos, não é uma figura por quem você cai de amores com facilidade: ele é controverso, teve atuações que podem ser tomadas como inconsequentes, levou uma vida em muitos momentos desregrada, mas no final eu fiquei hipnotizada. Contribuiu para isso a escrita apaixonada/apaixonante de Carrère, que te prende do começo ao fim, embora ele tenha dito em reportagem da Folha de São Paulo que, depois de passar duas semanas com o objeto de sua pesquisa para compor o livro, ele não mais sabia se gostava ou não de Eduard ou se ele era mocinho ou vilão. Mas talvez as coisas não sejam mesmo assim tão simples de definir, Monsieu Carrère...

Mais do que conhecer a vida do biografado, ao ler Limonov conhece-se um pouco (mais) da história da União Soviética, desde o fim da II Guerra Mundial (época em que Limonov nasceu), passando pela guerra fria, até a Rússia dos anos 2000 e a era Putin, a quem Limonov fez oposição ferrenha. Obviamente o olhar é enviesado (o que não é, afinal?), mas se o leitor já possui outras informações sobre esse país vai juntar as pecinhas desse imenso (não resisti ao trocadilho) quebra-cabeças e formar uma nova (ou ampliada) paisagem. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

#32 As Três Marias, Rachel de Queiroz

Eu nunca havia lido Rachel de Queiroz. Quando comprei meu Kindle, há pouco mais de um ano, O Quinze foi o primeiro livro que baixei, pois ganhava um download dentro de uma pré-seleção, se não me engano, e o escolhi. Mas ele ainda está lá, sem ser começado. Quem sabe acerto essa dívida com a obra, já que com a autora eu acabei acertando, pois em novembro li As Três Marias, que foi o livro enviado pela TAG (www.taglivros.com.br) no kit do mês.
Achei superimportante ler uma escritora que:
1º Pertenceu à chamada Geração de 30, que estudei na escola e aprendi a gostar e valorizar (Graciliano, Guimarães, Jorge Amado, José Lins etc.), pois representa um período importantíssimo (e que me interessa) na literatura brasileira;
2º Foi pioneira numa época em que mulheres sequer eram conhecidas por sua escrita no Brasil, uma raridade: publicou O Quinze aos 19 anos;
3º Foi a primeira mulher eleita na Academia Brasileira de Letras em 1977, apesar de eu ter sentimentos contraditórios em relação à ABL.
O romance conta a história da amizade entre três garotas que se conhecem num colégio interno e levam essa amizade pela vida toda. Muitas questões cruciais na vida de uma mulher na década de 20 ou 30 do século passado (e até hoje, com certeza) estão ali abordadas, como o casamento, a maternidade e o trabalho para mulheres. Cada uma com sua personalidade vai se encaixando na outra e elas se completam e se entendem, se respeitam, mesmo com algumas diferenças marcantes entre elas. Um tanto oprimidas pelas limitações da época, tendo sua liberdade cerceada por escola, igreja e família, cada uma das três Marias segue seu caminho da forma que lhe cabe, sendo Guta, a narradora (um alter ego de Rachel?) a que toma as atitudes um pouco mais rebeldes.

É uma história bonita, bem contada, que retrata um recorte bem específico no espaço, no tempo e no gênero.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

#31 A Morte de Ivan Ilitch, Liev Tolstói

Depois de ter me dedicado a Anna Kariênina e amado tanto, me interessei mais por Tolstói. Ao contrário daquele, A Morte de Ivan Ilitch pode ser lido numa tacada só até, pois não passam de 80 páginas.

O personagem do título faz uma reflexão sobre sua vida, à beira da morte, que pode muito bem ser uma reflexão sobre A vida – a sua, a minha, enfim, a existência. Nesse curto, mas não menos denso, romance, está presente uma teia de como são construídas certas relações humanas, baseadas no interesse, na conveniência, na mentira, na falsidade e na futilidade, tanto na família quanto no trabalho.  Como diz o escritor brasileiro Milton Hatoum no texto da orelha, “(...) Ivan Ilitch empreende uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa quanto a dor moral. Ambas se completam num sentimento de horror, que se revela através da consciência da morte”. Daí ele busca algum sentido para sua vida. Os russos e o século XIX – um encontro que, pelo menos na literatura, deu muito certo. Como entendem a alma humana!