domingo, 27 de janeiro de 2019

#46 Sting – Fora do Tom, Sting


O que eu mais gosto sobre ler (auto)biografias de músicos que admiro é, não só conhecer um pouco mais de sua vida, suas motivações, mas entender o contexto da cena da época no local em questão, sempre tão rica pra quem é amante de música como eu, que nos meus anos de juventude ainda nutria o desejo secreto de seguir uma vida nessa área - seja cantando ou escrevendo sobre o assunto, por isso fui estudar Jornalismo.
The Police foi uma banda que sempre respeitei, mas nunca esteve na lista das minhas mais mais. Certamente passariam na frente outras muito, mas muito mais trash. Porém, tenho uma ligação inegável com ela: já me apresentei cantando “Roxanne”, “King of Pain” e fazendo backing vocals para “Message in Bottle” (eu nem tinha contabilizado isso ainda; só saquei ao escrever esse texto aqui). Quando vi essa autobiografia do Sting pensei que seria uma bela oportunidade de conhecer um pouco mais sobre detalhes de sua vida e sua carreira.
Ele não traça uma trajetória linear de tudo, mas relata episódios que são cruciais e juntos formam uma boa ideia do que o levou a ser um dos maiores artistas dessa era desde quando era garotinho no norte da Inglaterra até o sucesso do primeiro disco do The Police. Tem um pouco da relação com os pais, a escola, sua formação como professor, o interesse precoce pela música (ajudado pelo fato de os pais serem também muito ligados a essa arte), os perrengues para pagar as contas, as namoradas, as primeiras bandas e shows. O livro começa relatando um episódio em que ele e sua esposa Trudie tomam o chá de ayahuasca no Brasil, experiência que se torna reveladora.
Além de detalhes de que eu não fazia ideia, pude me deleitar com um livro muito bem escrito (apesar de alguns mínimos deslizes de revisão na versão em português). Você percebe as referências cultas do músico, sua sensibilidade e como isso permeou toda sua vida artística. Um imenso prazer!

sábado, 26 de janeiro de 2019

#45 O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati


Um jovem militar é destacado para atuar num castelo longínquo ao norte (o local é impreciso), que faz divisa com um deserto por onde se prevê um iminente ataque dos tártaros. Com a possibilidade de lutar uma grande batalha e entrar apara a história, Giovanni Drogo segue para sua missão e começa a esperar que o tão temido mas promissor embate com os inimigos ocorra.
À espera de algo que vai sempre sendo adiado, adiada também é sua própria vida e de seus colegas na mesma missão. Relato introspectivo de cunho filosófico. Quantas vezes não deixamos de viver o presente, contando com um futuro do qual não se tem a mínima certeza?
Quem espera grandes acontecimentos vai se decepcionar. Mas quem curte reflexão vai se deleitar com esse livro do meu quase primo (rsrsrs).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

#44 O Complexo de Portnoy, Philip Roth


Obsceno e provocador, O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, autor norte-americano que morreu em maio de 2018 aos 85 anos, traz o personagem principal, Alex Portnoy, em um relato de sua vida e seus problemas ao analista. Judeu, Alex se ressente da educação repressora que teve devido à sua origem e deixa claro que isso o levou a uma vida adulta com uma sexualidade e relacionamentos desequilibrados. O tom é de muito humor; há passagens divertidíssimas. A linguagem é direta, sem preocupação com pudores.
No entanto, Alex se culpa por não conseguir se desvincular da casa dos pais, mesmo já não morando com eles, de não telefonar tanto, de viajar sem avisá-los. Ele é obcecado pela masturbação e quanto mais se culpa, mais pratica. Os pais são retratados como judeus caricatos e responsáveis pela culpa que o protagonista sente por não estar tão presente, como nesta passagem: “Esses dois são os maiores produtores e vendedores de culpa do século! Eles extraem culpa de mim como quem tira gordura de um frango!”
Do mesmo autor já li A Marca Humana, totalmente diferente, mas muitíssimo interessante também. Já há outros na fila de espera.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

#43 Caixa Preta, Jennifer Egan


Este é um conto que acabou saindo publicado como um livro. A ideia era que o texto tivesse formato de tuítes e saiu originalmente em doses diárias na revista New Yorker. Às vezes parece que ela está dando conselho para uma amiga (já que é narrado em 2ª), mas de fato são notas para si mesma, como um apanhado de aprendizados.
Essa trama futurista mostra uma espiã a serviço de homens poderosos e submetendo seu corpo ao implante de câmera, GPSs e dispositivos de memória e também o colocando à disposição do que precisar ser feito para obter informações úteis ao governo de seu país.
Embora incomode bastante o papel da mulher utilizando da sedução para obter informações confidenciais, a ideia do tipo de narrativa e a narrativa em si são muito interessantes. Também não gosto muito de histórias futuristas, mas é bom sair da zona de conforto um pouco.
Jennifer Egan é uma autora norte-americana contemporânea muito interessante. Há outras obras suas que eu gostaria de ler e gostei muito de A Visita Cruel do Tempo (quem tiver interesse em ler a resenha que fiz aqui fique à vontade https://adrianabuzzetti.blogspot.com/2018/05/15-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan.html. Quem gosta do mundo do rock vai curtir).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

#42 Garra – O Poder da Paixão, Angela Duckworth


Ouvi falar deste livro em um curso de gestão comercial que fiz e me interessei por lê-lo. Utilizando conceitos que eu já havia conhecido no famoso livro Mindset (https://adrianabuzzetti.blogspot.com/2018/03/8-mindset-nova-psicologia-do-sucesso.html), ele diz basicamente que esforço é mais importante que talento. O talento pode ser um facilitador, uma porta de entrada, mas é o esforço e a dedicação que vai levar a pessoa a realizar as coisas que deseja. Consegui fazer um paralelo com o meu desenvolvimento na língua inglesa. Tive facilidade desde meu primeiro contato, talvez eu tenha talento para aprender línguas estrangeiras, mas se eu não tivesse me dedicado, se não tivesse estudado horas e horas para prestar exames internacionais, talvez eu não tivesse chegado ao nível de conhecimento e uso da língua a que cheguei, talvez eu não tivesse me tornado professora de inglês e nem trabalhasse nesse ramo.
A autora trata de como é importante se dedicar a praticar algo que se descobre gostar e que saber que o que você faz é importante também dá mais motivação para realizar. Embora ela diga que tenha sido educada para não cultivar sonhos idealistas de fazer o que se ama, ela mostra no livro o quão importante é gostar do que se faz para estar feliz e satisfeito. Como um todo, o livro pode ser um pouco repetitivo, mas a leitura é agradável e os ensinamentos são bem úteis.
Em tempo: Quem quiser ver o vídeo de Angela Duckworth falando sobre o assunto em uma TED Talk, clique aqui:

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

#41 Southernmost – Rumo ao Sul, Silas House


Confesso que quase desisti. Levei várias páginas para me engajar um pouquinho na história e, ainda assim, depois de quase 100 páginas lidas eu quis parar. Mas aí já seria uma desonra desistir, então aguentei firme.
A história se passa no sul dos Estados Unidos. Após uma enchente histórica, o pastor Asher Sharp abriga um casal homossexual em sua casa e sofre repreenda de sua esposa e da comunidade religiosa a que pertence. Após esse episódio, Asher faz um sermão contra a homofobia na sua igreja e acaba expulso. Pra completar, a mulher o deixa e ele perde a guarda do filho, com o qual foge para o extremo sul da Flórida. Segue-se uma saga em que ele tenta provar que seu ponto de vista estava correto, mas ao mesmo tempo consertar outros erros do passado.
O tema é atual e, embora a intolerância tenha sido exagerada no livro, verossímil. Resvala bastante na pieguice e como obra literária carece de méritos maiores. Não achei que faz jus a um tema que é tão presente e importante hoje.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

#40 Léxico Familiar, Natalia Ginzburg


Agora que 2018 acabou, posso dizer que Léxico Familiar foi um dos melhores livros que li no ano passado. Natalia Ginzburg narra as memórias de sua família na Itália dos anos 30 aos anos 50 através de seu particular linguajar. 
Seu pai, talvez o personagem mais peculiar, tem as melhores frases, que Natalia muitas vezes teve que explicar ao longo do livro: tinha sua opinião formada e explicitada sobre os filhos: o que deviam fazer, com quem (não) deviam andar, o que (não) eram boas companhias, se sabiam ou não educar os filhos....sempre com aquela sinceridade que às vezes nos falta com o anseio de agradar.
Enquanto mostra a família como um clã que tem sua linguagem própria como sinal de pertença, de marcação de lugar no mundo, o livro vai ao mesmo tempo deixando claro que essa união pode se desfazer com o que acontece ao redor. Ao mesmo tempo que trata de um microcosmo é o recorte de um momento histórico.