segunda-feira, 30 de setembro de 2019

#6 Ninguém Pode Saber, Karin Slaughter


Quem não tem cão caça com gato, já dizia o ditado. Já que Gillian Flynn não lança nada novo desde O Adulto, de 2014, eu leio Karin Slaughter, que muitos acham parecida com a primeira. Cada uma tem suas particularidades. Acho que as personagens de Gillian tem mais consistência, mas Karin sabe criar umas histórias bem intrincadas também. Eu quase não conseguia parar de ler esse Ninguém Pode Saber, com suas mais de 400 páginas.
De cara você saca que tem algo muito misterioso com Laura Oliver, mulher na casa dos 50 anos que, pela forma com que dominou e matou (isso nem é spoiler) um assaltante no restaurante em que almoçava com a filha de 31 anos, Andrea, suscita as mais variadas especulações sobre seu passado.
Devido a um desdobramento desse acontecimento, Andrea sai em busca de pistas sobre quem é sua mãe. O título original (Pieces of Her, pedaços dela, em português) é muito eficaz, pois dá uma ideia do que é que Andrea vai obtendo ao longo de sua saga, até conseguir montar o quebra-cabeças.
Andrea é muito ingênua para várias coisas. Será que uma mulher de 30 e poucos cometeria alguns deslizes como ela cometeu? Laura, a gente acaba vendo, mudou muito sua personalidade ao longo dos anos. As coisas pelas quais ela passou justificam, até. É mais verossímil.
De qualquer forma, é uma ótima diversão! Mas sigo torcendo para Gillian Flynn nos brindar com um novo romance.
Ficha técnica
Editora: HarperCollins
Ano: 2018
Título original: Pieces of Her
Tradutor: Alexandre Martins
Páginas: 416

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

#5 A Vida Secreta da Mente, Mariano Sigman


Ideal para quem é leigo, mas tem um pouco de interesse pela forma como surgem os pensamentos, como fazemos escolhas e como o inconsciente dirige nossa vida. Neste livro, o neurocientista argentino radicado na Espanha Mariano Sigman aborda essas questões e outras, inclusive sobre o desenvolvimento das crianças (especialmente o desenvolvimento da linguagem), o que também me encanta, porque trabalho também com educação.
Há uma certa quantidade de teoria no livro, sim, mas quem não é do ramo consegue passar por ela sem se deixar abater e pode seguir em frente, pois o que se aprende ou as curiosidades que desperta compensam.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

#4 A Besta Humana, Émile Zola


Este ano me propus a ler mais clássicos, porque normalmente leio umas coisas um pouco fora da curva. Este foi um deles. Eu sempre gostei muito da literatura francesa, especialmente do realismo/naturalismo (não só na França, nesse caso), e essa edição da Editora Zahar (sem querer fazer propaganda) é linda de viver!!!! Capa dura, papel reading-friendly, apresentação escrita pelo tradutor Jorge Bastos que acrescenta muito à experiência de leitura, mais de 80 notas ao longo do livro (tem quem não goste, mas eu amo, desde que sejam na própria página e não no fim do livro; ninguém merece ter que ficar indo e vindo) e cronologia da vida e obra de Zola. Portanto, mais que me empolguei. E valeu cada minuto da leitura.
“A Besta Humana” foi publicado originalmente em 1890 e faz parte de um projeto literário de Zola chamado “Os Rougon-Macquart: história natural e social de uma família sob o segundo império”. Ele achava que sua obra era mais científica que a de Balzac, por exemplo, que por meio do recorte de uma família fosse descrever a sociedade da época.
O membro da família Rougon-Macquart aqui é Jacques Lantier, maquinista na linha de trem que liga Paris à portuária cidade de Le Havre, no norte da França, cuja ruptura de caráter é a violência contra as mulheres.
Além do viés psicológico da trama, o fascínio que as locomotivas exerciam no final do século XIX transborda pelas páginas, a ponto de a locomotiva que ele conduzia ter nome, Lison, e ser considerada até uma personagem no livro. O romance também pode ser lido como uma crítica ao exagero industrial. Mas o que sobressalta é a qualidade literária, como conta a história, como cria os personagens e amalgama tudo isso em algo que sobrevive à passagem do tempo.
Ficha técnica
Editora: Zahar
Tradução: Jorge Bastos
Ano: 2014
Páginas: 367


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

#4 Atenção Plena, Mark Williams e Danny Penman


Tentando aproveitar um pouco melhor meu tempo dedicando mais foco a cada coisa que estiver fazendo, me interessei por ler este Atenção Plena. Além de ter um CD que guia todos seus passos na meditação, o texto em si traz muitas dicas para trazer o leitor para o tempo presente, como prestar atenção nos detalhes que o cerca, desligar do piloto automático, não deixar que uma avalanche de sentimentos ruins tome conta de um momento de tristeza e como não depender de elementos externos para encontrar a felicidade e o equilíbrio.
Difícil? Bastante. Utópico? Talvez, não. Como diz no prefácio: “... a atenção plena é, na verdade, uma prática. É um estilo de vida, e não apenas uma boa ideia, uma técnica inteligente, uma moda passageira.”
Eu absorvi a lição e pratico direitinho? Claaaaaro que não. Mas já dei um primeiro passo. Deve-se insistir e persistir. Pelo menos já aprendi a respirar para controlar a ansiedade quando acordo no meio da noite e perco o sono! 
Ficha técnica
Editora: Sextante
Tradução: Ivo Korytowski
Ano: 2011
Páginas: 207

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

#3 O Sentido de um Fim, Julian Barnes


Um dos livros mais impactantes, ambíguos, interessantes, inesquecíveis que já li. Talvez se possa dizer que é sobre o tempo e a memória (acredito que esses dois aspectos são mesmo muito presentes no enredo), mas será? Tudo é tão relativo e passível de credibilidade. O narrador, Tony Webster, já se mostra não-confiável desde o início, quando afirma que “o que você acaba lembrando nem sempre é o que viu”. Ele conta sobre suas amizades, seus relacionamentos, as tragédias que aconteceram com alguns, mas sempre com a ressalva de que o que fala pode não ser exatamente a verdade.
            Também é um livro que me fez pensar na minha própria vida e trajetória, na imagem que criei de mim mesma, na imagem de mim que quero passar, passo e passei para os outros até aqui, nas escolhas que fiz e faço. Que mais elas trarão?
            Ao final, com relação à história narrada, você já não tem certeza de nada e acho que era pra ser assim mesmo. Mas não se sai incólume dessa leitura.
Ficha Técnica
Editora: Rocco
Título original: The Sense of an Ending
Tradutora: Léa Viveiros de Castro
Ano:2011

Voltando à ativa

Quando o ano começou e escrevi minha retrospectiva literária de 2018 com desejos para 2019, uma das minhas "metas" era continuar escrevendo sobre livros, não importando se fosse neste blog ou em qualquer lugar. No entanto, a vida como ela estava foi me cansando e acabou que escrevi apenas duas resenhas neste ano e abandonei isso aqui.
Muita água rolou por debaixo da ponte (saí do emprego, fiz e estou fazendo cursos no meio editorial, estou redirecionando minha vida profissional). Numa espécie de período sabático que acabei me dando, fiquei bastante tempo só lendo, lendo muito, mas sem ter a obrigação de escrever nada sobre o que lia.
Semana passada, porém, fui meio que incentivada pelo comentário de uma amiga e pensei: "Por que não estou escrevendo sobre os livros que leio, se isso é uma das coisas que mais me movem ou mais me estimulam?"
Pois que agora tento retomar o trabalho aqui. De novo: mesmo que seja só por mim mesma e menos de meia dúzia de gatos pingados. Tem muita coisa acumulada. Bem mais do que na foto aí.
No próximo post, o livro que reabre as escritas nesse espaço.
Se tiver quem quiser seguir comigo, vamos nessa!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

#2 O Coração é um Caçador Solitário, Carson McCullers


Ah, esse livro. Começa pelo título. Eu nunca tinha ouvido falar dele, mas quando vi esse título pensei: “Que poético! Deve ser lindo!”. E é. Há que se reconhecer que a ideia para o nome do livro não foi da autora, mas da editora do livro. Carson McCullers queria chamá-lo O Mudo, referência a um dos personagens centrais da história (também sabemos que não existe a condição de mudo por si só; se a pessoa não fala é porque não ouve).
Bem, a história se passa no período entre a Grande Depressão e a Primeira Guerra Mundial numa cidade no sul dos Estados Unidos ainda muito marcada pelo preconceito racial e sofrendo com a crise socioeconômica. Cinco personagens principais vão sendo apresentados: John Singer (o mudo), Mick Kelly (garota de 12 anos, filha do dono da casa  em que alguns personagens alugam quartos e onde muitas cenas se desenrolam), Dr. Copeland (médico, homem negro que segue sua missão, seu propósito ao atender a população negra e acaba ele mesmo descuidando de sua saúde), Jake Blount (morador que parece estar de passagem, cheio de mensagens de cunho marxista) e Bill Brannon (dono do bar e restaurante em que muitos personagens bebem e comem e que também é palco de muitos acontecimentos dessa história).
O livro trata de alguns temas:
Solidão: ao mesmo tempo que há bastantes acontecimentos na história e interação entre os personagens, os cinco principais são extremamente solitários e parecem viver uma história à parte. Como diz Mick, eles vivem muito no mundo de dentro (o mundo dos seus próprios pensamentos) e só vivem o mundo de fora quando algo que acontece ali os afeta ou eles tem que agir sobre isso.
Ponto de vista: cada um dos cinco personagens principais tem suas teorias sobre a vida, sobre o mundo, sobre o amor, os relacionamentos, sua missão e isso fica evidente nos monólogos internos. Não necessariamente, os pontos de vista deles convergem, ao contrário.
Comunicação/O Mudo: Singer é figura central dessa história. Ele se comunica pela língua de sinais, mas seu outro amigo surdo-mudo, o grego Antonapoulos, acaba internado em uma casa para pessoas com distúrbios psiquiátricos. Ele lê lábios e escreve bilhetes para se comunicar com outros personagens, mas na maioria das vezes apenas ouve. Como ele se expressa pouco, os outros personagens todos recorrem a ela para contar suas lamúrias, pois ele é quem vai ouvir e pouco ou nada criticar ou debater. Ou seja, é uma forma de validação da visão de mundo de cada um. Eles também consideram Singer a melhor pessoa, que compartilha das mesmas ideias, o melhor amigo, enquanto Singer tem opiniões um pouco diferentes dos seus colegas. Acaba se mostrando bastante crítico de suas atitudes. Seu verdadeiro amigo é o grego.
Talvez a mensagem central seja de que é possível conviver e coexistir mesmo tendo opiniões tão contrárias sobre certas coisas; que a busca da unanimidade de opiniões seja completamente desnecessária e que a vida é um eterno exercício de tolerância, mas que isso também não deveria ser tão difícil ou doloroso. Deveria ser normal.
Os menos sensíveis ou menos atentos, digamos, dirão que o livro é sobre nada em especial, mas é aí que se enganam.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

#1 O Mundo Pós-Aniversário, Lionel Shriver


Lionel Shriver é a autora do livro que deu origem ao filme Precisamos Falar Sobre o Kevin, muito comentado quando foi lançado. Já li outros da autora e todos conservam uma semelhança no sentido de levar as relações humanas para um patamar maior, transpondo o que acontece entre duas pessoas para um patamar mais macro. O Mundo Pós-Aniversário pode ser visto como uma representação de narrativa aberta, com duas opções de curso de ação dependendo da decisão que se toma. O “talvez” e o “e se” guiam a história de Irina, Lawrence e Ramsey.
Ao propor dois possíveis caminhos e, consequentemente, desfechos, para o triângulo amoroso, Shriver sintoniza com um dos acontecimentos que mais marcaram a virada do século XX para o XXI, o ataque terrorista às torres gêmeos do World Trade Center em Nova York, em 2001. O mundo nunca mais foi o mesmo depois disso; tampouco o foi a vida de Irina, na versão da história em que ela decide deixar o companheiro, Lawrence, após 9 anos de relacionamento, para ficar com o amigo, lenda da sinuca, Ramsey Acton.
O curioso é que Ramsey é um cara meio “escroto” na versão da história em que Irina decide ficar com ele e super “gente boa” naquele em que ela resiste à atração. Por sua vez, Lawrence faz tudo de irritante que se pode imaginar na versão em que Irina não o deixa se comporta como o mais gentil e cavalheiro dos homens naquela em que leva um pé na bunda. Irônico? Proposital.
Duas versões perfeitamente entrelaçadas para vidas que poderiam ter percorrido destinos diferentes se uma outra decisão tivesse sido tomada. Lionel Shriver escreve com maestria. Excelente escolha para começar o ano lendo!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Retrospectiva Literária 2018




Vamos a alguma organização.
Dos 50 livros que li em 2018 (um recorde para mim, sem dúvida!), temos:
31 romances
9 de psicologia e autoconhecimento
14 de autores norte-americanos
13 de autores brasileiros
7 de ingleses
24 escritos por mulheres

Entre os países das escritoras e escritores, há Suíça, Sudão, Japão, Bielorrússia, Rússia, Marrocos, Irlanda, Nigéria, Paquistão, África do Sul, Itália, Irã, Índia, Espanha e Inglaterra. Mostra que cumpri um desejo que havia estabelecido para o ano de ler escritos de países que eu não havia lido ainda. Tem alguns aí acima.
Entre os gêneros literários, além dos já citados, os mais expressivos, o restante foi extremamente pulverizado entre história, biografia, contos, crônicas, linguística, peça, crítica literária e depoimentos. Não li nada de poesia mais uma vez, não cumprindo com a intenção de incluir esse gênero nas minhas leituras de 2018.

Os livros que mais amei e/ou mais me surpreenderam (não há ordem de preferência)

A Visita Cruel do tempo, Jennifer Egan

Reparação, Ian McEwan

Voragem, Junichiro Tanizaki

As Últimas Testemunhas, Svetlana Aleksiévitch 

O Tribunal da Quinta-Feira, Michel Laub

Léxico Familiar, Natalia Ginzburg

Sting – Fora do Tom, Sting


O que quero para 2019

1.       Continuar lendo, mas não necessariamente ler cada vez mais.
Se o tempo disponível para leitura é o mesmo, perco em qualidade de leitura. Posso arrumar mais tempo para ler, mas acho que já leio bastante e quero manter esse ritmo, mas tentando ler com mais qualidade, mais atenção, anotações para me ajudar a lembrar de detalhes importantes. E talvez arrumar mais tempo para outras atividades que fico postergando, como a física, por exemplo.

2.       Comprar menos livros
Eu tenho muitos e muitos sem ler ainda, aguardando uma chance. Depois que adquiri o Kindle, uns 2 anos e meio atrás, a coisa só piorou, porque como você não vê os livros se acumulando, dá uma falsa sensação de menos culpa. Mas eles também estão lá esperando para serem lidos. Vou tentar fazer uma lista. Deve me ajudar a organizar o que ler e ter uma noção maior do acervo.
Não comprar mais é bastante difícil, porque eu tenho interesses variados e tenho muito interesse. O verbo de quem é de gêmeos é saber, e ler pra mim é saber. E ver é querer. Então, gera uma angústia. Mas estou indo relativamente bem. Janeiro acabou e não comprei nenhum (além dos dois clubes do livro que eu assino; um deles pretendo cancelar). Normalmente, eu teria comprado 2, no mínimo. De vez em quando eu faço umas doações, mas preciso fazer mais.

Esses dois desejos aí de cima já bastariam para fazer de 2019 um ano bom e produtivo de leituras, mas posso desdobrá-los em alguns mais:

3.       Ler mais clássicos
Tenho vários aguardando – russos, ingleses, brasileiros, franceses. Vou tentar intercalar com outros mais contemporâneos. Já estou lendo A Besta Humana, de Émile Zola.

4.       Ler livros fora da curva
Isso eu já faço, mas é pra não parar. Muito importante para pensar fora da caixa, sair da zona de conforto, ampliar os horizontes (literários ou não). Autores menos conhecidos, de países menos óbvios.  Necessário.

5.       Continuar escrevendo sobre os livros
Seja aqui neste blog ou em outro meio. Mesmo que poucos leiam e ninguém comente, é um exercício pra mim. E a persistência pode recompensar no final. Quando uma única pessoa me diz que se interessou pelo livro sobre o qual eu escrevi, já vale a pena. A intenção primeira é incentivar outros a lerem. Vou evitar postergar. Vou tentar escrever assim que acabo a leitura, pois tudo está fresco na memória e facilita o processo.

6.       Fazer mais anotações durante as leituras
Isso tem a ver com o item 1 e vai facilitar o item 5. Depois de um tempo, você pode voltar às anotações e pensar completamente diferente, mas ainda assim, essas anotações te ajudam a organizar as ideias sobre o livro enquanto lê ou a refletir sobre ele ao terminar a leitura.

7.       Terminar livros que estão começados
Como tenho muita coisa e tenho muitos interesses, vou lendo mais de um ao mesmo tempo. Acaba que às vezes o interesse vai diminuindo porque surgem outros e aquele livro fica abandonado por um tempo. Tem pelo menos uns dez nessa condição.

E assim espero continuar.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

#50 Canção de Ninar, Leïla Slimani


Este foi último livro que li em 2018. Ouvi falar de franco-marroquina Leïla Slimani na época da FLIP (Festa Literária de Parati) no ano passado e fiquei muito interessada nesta narrativa que mostra como a vida de uma família de classe média em Paris é afetada pela presença e atitudes da babá que finalmente contrataram para que Myriam pudesse voltar a trabalhar depois de ter dois filhos.
O casal busca a pessoa ideal para a tarefa de cuidar dos filhos e Louise se encaixa perfeitamente: muito educada e discreta, as crianças caem de amores por ela logo de cara. Mas a relação simbiótica entre babá e família acaba sendo de dependência, e o tiro a princípio certeiro acaba saindo pela culatra e uma tragédia acontece. O desfecho conhecemos desde o início, mas a narrativa se sobressai ao trazer à tona questões de preconceito de classe e de cultura, relações de poder e o papel da mulher na sociedade. Escrito de forma brilhante. Excelente para terminar as leituras do ano de 2018.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

#49 Nada, Carmen Laforet


Nada conta a história da jovem Andrea, que vai do interior da Espanha para a Barcelona pós-Guerra Civil Espanhola a fim de cursar Letras na universidade local e morar com os parentes que lá vivem.
Seu percurso acadêmico fica em segundo plano para dar lugar ao sentimento de inadequação que Andrea vive. A começar pela sua chegada à casa em que moram a avó e alguns tios. Sinais de decadência na moradia e nas relações entre os familiares saltam aos olhos. A jovem sente que é um incômodo na casa, pois veio a dar gastos e desequilibrar ainda mais uma dinâmica que já não era nada equilibrada.
Na universidade, mais sentimento de não-pertencimento: ela sente vergonha de suas roupas, seus sapatos, sua falta de materiais, sua origem humilde, enquanto todos os outros alunos parecem ter condições melhores. Ena é a amiga que acolhe Andrea, mas com quem também parece ter uma relação ambígua.
Um dos méritos da escritora Carmen Laforet foi de não ter feito uma crítica aberta ao regime franquista, revelando detalhes de como era a vida sob a ditadura de forma bastante sutil. Com isso, escapou da censura do período, sendo até agraciada com o Prêmio Nadal. No entanto, a família da escritora se viu retratada por meio de vários personagens do livro, se ofendeu e policiou suas publicações futuras, o que culminou em obras cada vez mais escassas.
Com uma linguagem limpa, livre de sentimentalismos (mesmo diante de uma realidade triste e difícil), Carmen Laforet consegue expressar uma sensível poesia frente a atrocidades que marcaram a vida dos personagens.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

#48 Existo, Existo, Existo, Maggie O’Farrell


Este livro é uma coletânea de contos que juntos compõem as memórias da autora norte-irlandesa. Ela relata dezessete episódios em que esteve em uma experiência próxima da morte (sua ou de alguém muito próximo). Os títulos dos relatos são sempre relacionados a alguma parte do corpo (a que esteve mais em perigo) e o ano quando aconteceu.
Se por um lado impressiona o tratamento linguístico e literário que a autora dá para as várias passagens, por outro fica aquela impressão de que “nossa, mas só aconteceu desgraça com essa mulher!”. Bem, é verdade que algumas experiências foram algo até corriqueiro, que ao transformar num conto, O’Farrell imprimiu uma aura de excepcionalidade. Também é verdade que a escritora teve uma doença muito grave quando criança, quando os médicos disseram que ela jamais voltaria a andar ou ter uma vida normal, o que ela conseguiu fazer. Além disso, a doença grave de sua filha que a coloca em perigo constante de ter um choque anafilático.
Assim, é de se louvar que tenha conseguido dar vazão à criatividade diante de adversidades tão severas e transformado dor, medo e desesperança em arte. Só por isso já vale a pena.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

#47 A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, Mark Manson


O que me chamou a atenção nesse livro foi a objetividade do título. Daí pensei: "Vamos ver o que esse cara tem pra dizer". Acredito que a mensagem principal é que a busca desenfreada por sucesso e felicidade (muitas vezes impulsionada pelo que vemos da vida dos outros pelas lentes das redes sociais) não vai nos trazer nada. Você vai ouvir “não”, você vai falhar, vai ter problemas, vai sofrer, você não é especial e tudo bem! Conviva com isso. Aceite seus defeitos. Não significa se acomodar, mas não buscar a perfeição porque (surpresa!!!) ela não existe. Nós não vamos ser felizes sempre. E sofrer e ter momentos de tristeza fazem parte do crescimento e tem sua importância na nossa formação.
A linguagem é direta e a leitura te prende. Uma grande obra de filosofia? Claro que não. Nem o autor se propôs a isso. Autoajuda? Ele não a classifica dessa forma, mas está bem perto de algumas outras do gênero.  Muitas coisas que ele diz no livro a gente instintivamente sabe, mas às vezes precisamos que alguém nos diga para que caia a ficha.

domingo, 27 de janeiro de 2019

#46 Sting – Fora do Tom, Sting


O que eu mais gosto sobre ler (auto)biografias de músicos que admiro é, não só conhecer um pouco mais de sua vida, suas motivações, mas entender o contexto da cena da época no local em questão, sempre tão rica pra quem é amante de música como eu, que nos meus anos de juventude ainda nutria o desejo secreto de seguir uma vida nessa área - seja cantando ou escrevendo sobre o assunto, por isso fui estudar Jornalismo.
The Police foi uma banda que sempre respeitei, mas nunca esteve na lista das minhas mais mais. Certamente passariam na frente outras muito, mas muito mais trash. Porém, tenho uma ligação inegável com ela: já me apresentei cantando “Roxanne”, “King of Pain” e fazendo backing vocals para “Message in Bottle” (eu nem tinha contabilizado isso ainda; só saquei ao escrever esse texto aqui). Quando vi essa autobiografia do Sting pensei que seria uma bela oportunidade de conhecer um pouco mais sobre detalhes de sua vida e sua carreira.
Ele não traça uma trajetória linear de tudo, mas relata episódios que são cruciais e juntos formam uma boa ideia do que o levou a ser um dos maiores artistas dessa era desde quando era garotinho no norte da Inglaterra até o sucesso do primeiro disco do The Police. Tem um pouco da relação com os pais, a escola, sua formação como professor, o interesse precoce pela música (ajudado pelo fato de os pais serem também muito ligados a essa arte), os perrengues para pagar as contas, as namoradas, as primeiras bandas e shows. O livro começa relatando um episódio em que ele e sua esposa Trudie tomam o chá de ayahuasca no Brasil, experiência que se torna reveladora.
Além de detalhes de que eu não fazia ideia, pude me deleitar com um livro muito bem escrito (apesar de alguns mínimos deslizes de revisão na versão em português). Você percebe as referências cultas do músico, sua sensibilidade e como isso permeou toda sua vida artística. Um imenso prazer!

sábado, 26 de janeiro de 2019

#45 O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati


Um jovem militar é destacado para atuar num castelo longínquo ao norte (o local é impreciso), que faz divisa com um deserto por onde se prevê um iminente ataque dos tártaros. Com a possibilidade de lutar uma grande batalha e entrar apara a história, Giovanni Drogo segue para sua missão e começa a esperar que o tão temido mas promissor embate com os inimigos ocorra.
À espera de algo que vai sempre sendo adiado, adiada também é sua própria vida e de seus colegas na mesma missão. Relato introspectivo de cunho filosófico. Quantas vezes não deixamos de viver o presente, contando com um futuro do qual não se tem a mínima certeza?
Quem espera grandes acontecimentos vai se decepcionar. Mas quem curte reflexão vai se deleitar com esse livro do meu quase primo (rsrsrs).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

#44 O Complexo de Portnoy, Philip Roth


Obsceno e provocador, O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, autor norte-americano que morreu em maio de 2018 aos 85 anos, traz o personagem principal, Alex Portnoy, em um relato de sua vida e seus problemas ao analista. Judeu, Alex se ressente da educação repressora que teve devido à sua origem e deixa claro que isso o levou a uma vida adulta com uma sexualidade e relacionamentos desequilibrados. O tom é de muito humor; há passagens divertidíssimas. A linguagem é direta, sem preocupação com pudores.
No entanto, Alex se culpa por não conseguir se desvincular da casa dos pais, mesmo já não morando com eles, de não telefonar tanto, de viajar sem avisá-los. Ele é obcecado pela masturbação e quanto mais se culpa, mais pratica. Os pais são retratados como judeus caricatos e responsáveis pela culpa que o protagonista sente por não estar tão presente, como nesta passagem: “Esses dois são os maiores produtores e vendedores de culpa do século! Eles extraem culpa de mim como quem tira gordura de um frango!”
Do mesmo autor já li A Marca Humana, totalmente diferente, mas muitíssimo interessante também. Já há outros na fila de espera.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

#43 Caixa Preta, Jennifer Egan


Este é um conto que acabou saindo publicado como um livro. A ideia era que o texto tivesse formato de tuítes e saiu originalmente em doses diárias na revista New Yorker. Às vezes parece que ela está dando conselho para uma amiga (já que é narrado em 2ª), mas de fato são notas para si mesma, como um apanhado de aprendizados.
Essa trama futurista mostra uma espiã a serviço de homens poderosos e submetendo seu corpo ao implante de câmera, GPSs e dispositivos de memória e também o colocando à disposição do que precisar ser feito para obter informações úteis ao governo de seu país.
Embora incomode bastante o papel da mulher utilizando da sedução para obter informações confidenciais, a ideia do tipo de narrativa e a narrativa em si são muito interessantes. Também não gosto muito de histórias futuristas, mas é bom sair da zona de conforto um pouco.
Jennifer Egan é uma autora norte-americana contemporânea muito interessante. Há outras obras suas que eu gostaria de ler e gostei muito de A Visita Cruel do Tempo (quem tiver interesse em ler a resenha que fiz aqui fique à vontade https://adrianabuzzetti.blogspot.com/2018/05/15-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan.html. Quem gosta do mundo do rock vai curtir).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

#42 Garra – O Poder da Paixão, Angela Duckworth


Ouvi falar deste livro em um curso de gestão comercial que fiz e me interessei por lê-lo. Utilizando conceitos que eu já havia conhecido no famoso livro Mindset (https://adrianabuzzetti.blogspot.com/2018/03/8-mindset-nova-psicologia-do-sucesso.html), ele diz basicamente que esforço é mais importante que talento. O talento pode ser um facilitador, uma porta de entrada, mas é o esforço e a dedicação que vai levar a pessoa a realizar as coisas que deseja. Consegui fazer um paralelo com o meu desenvolvimento na língua inglesa. Tive facilidade desde meu primeiro contato, talvez eu tenha talento para aprender línguas estrangeiras, mas se eu não tivesse me dedicado, se não tivesse estudado horas e horas para prestar exames internacionais, talvez eu não tivesse chegado ao nível de conhecimento e uso da língua a que cheguei, talvez eu não tivesse me tornado professora de inglês e nem trabalhasse nesse ramo.
A autora trata de como é importante se dedicar a praticar algo que se descobre gostar e que saber que o que você faz é importante também dá mais motivação para realizar. Embora ela diga que tenha sido educada para não cultivar sonhos idealistas de fazer o que se ama, ela mostra no livro o quão importante é gostar do que se faz para estar feliz e satisfeito. Como um todo, o livro pode ser um pouco repetitivo, mas a leitura é agradável e os ensinamentos são bem úteis.
Em tempo: Quem quiser ver o vídeo de Angela Duckworth falando sobre o assunto em uma TED Talk, clique aqui:

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

#41 Southernmost – Rumo ao Sul, Silas House


Confesso que quase desisti. Levei várias páginas para me engajar um pouquinho na história e, ainda assim, depois de quase 100 páginas lidas eu quis parar. Mas aí já seria uma desonra desistir, então aguentei firme.
A história se passa no sul dos Estados Unidos. Após uma enchente histórica, o pastor Asher Sharp abriga um casal homossexual em sua casa e sofre repreenda de sua esposa e da comunidade religiosa a que pertence. Após esse episódio, Asher faz um sermão contra a homofobia na sua igreja e acaba expulso. Pra completar, a mulher o deixa e ele perde a guarda do filho, com o qual foge para o extremo sul da Flórida. Segue-se uma saga em que ele tenta provar que seu ponto de vista estava correto, mas ao mesmo tempo consertar outros erros do passado.
O tema é atual e, embora a intolerância tenha sido exagerada no livro, verossímil. Resvala bastante na pieguice e como obra literária carece de méritos maiores. Não achei que faz jus a um tema que é tão presente e importante hoje.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

#40 Léxico Familiar, Natalia Ginzburg


Agora que 2018 acabou, posso dizer que Léxico Familiar foi um dos melhores livros que li no ano passado. Natalia Ginzburg narra as memórias de sua família na Itália dos anos 30 aos anos 50 através de seu particular linguajar. 
Seu pai, talvez o personagem mais peculiar, tem as melhores frases, que Natalia muitas vezes teve que explicar ao longo do livro: tinha sua opinião formada e explicitada sobre os filhos: o que deviam fazer, com quem (não) deviam andar, o que (não) eram boas companhias, se sabiam ou não educar os filhos....sempre com aquela sinceridade que às vezes nos falta com o anseio de agradar.
Enquanto mostra a família como um clã que tem sua linguagem própria como sinal de pertença, de marcação de lugar no mundo, o livro vai ao mesmo tempo deixando claro que essa união pode se desfazer com o que acontece ao redor. Ao mesmo tempo que trata de um microcosmo é o recorte de um momento histórico.